26 de julho de 2012

A morte de Lampião e o nascer de uma lenda brasileira

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Lampião, para muitos um herói para a maioria o maior bandido do sertão
   Virgulino Ferreira da Silva, o cangaceiro Lampião morreu em 28 de julho de 1938, no município de Poço Redondo, na fazenda Angico, em Sergipe. Era o segundo filho de José Ferreira da Silva e de Maria Selena da Purificação. De acordo com sua Certidão de Nascimento, Lampião teria nascido em Serra Talhada, Pernambuco, em 04 de Junho de 1898.
  Teve uma infância comum aos meninos sertanejos, montava animais, pescava, nadava nos rios. Aprendeu a ler e a escrever, mas desde cedo ajudou o pai com o gado. Por causa de uma briga com um vizinho seu pai foi morto em um confronto com a polícia. Virgulino jurou vingança. Em 1920 entrou para o bando do cangaceiro “Sinhô Pereira”, nessa época passa a ser conhecido como Lampião, uma das versões para o apelido é a de que ele atirava várias vezes seguida deixando a ponta da espingarda iluminada.
   Em 1922 Sinhô Pereira deixou o cangaço e passou o comando para o jovem Virgulino. Em 1930 conheceu Maria Déia casada com José de Nenén, que deixa o marido e se junta ao bando de Virgulino. Maria Bonita, como ficou conhecida, foi à primeira mulher a entrar para o cangaço. O casal teve uma filha, Expedita Ferreira, nascida em 13 de setembro de 1932. Maria Bonita deu a luz em plena Caatinga tendo Lampião como parteiro.
   Em 1992 o jornalista Valter Lima, da Rádio Nacional de Brasília, foi até Aracaju (SE), onde entrevistou Expedita Ferreira. Ela contou das lembranças que tinha dos pais, Lampião e Maria Bonita e da sua infância. A entrevista foi apresentada no programa Revista Brasil.

Rádio Nacional de Brasília - Valter Lima entrevista Expedita Lampião, no programa Revista Brasil, em 1992.
  A aristocracia cangaceira, como dizia Virgulino, tinha regra, cultura e moda. As roupas eram desenhadas e confeccionadas pelo próprio Lampião.
  A radionovela “A Deusa do Cangaço” veiculada pela Rádio Educadora FM 107,5, da Bahia, levada ao ar entre os dias 25 de abril e 06 de maio de 2010, em seus 10 capítulos levou os ouvintes para um Brasil de 1938, em que o rádio, recém-chegado ao sertão, informa e inspira a personagem principal e fã do cangaço – a menina Téssia, que possui 10 anos de idade – com notícias sobre o seu ídolo, Lampião. O impressionante conhecimento de Téssia e o seu olhar infantil sobre o tema, termina por envolvê-la junto com sua família numa aventura pelo sertão brasileiro da década de 30. Em meio a essa aventura, surgem “causos”, sobre o cangaço e seus principais personagens.
Radionovela - "A Deusa do Cangaço" veiculada em 2010 pela Rádio Educadora FM.
No dia 27 de julho de 1938, o bando de Lampião acampou na fazenda Angicos, no sertão de Sergipe. Era noite, chovia muito e todos dormiam em suas barracas. Na madrugada do dia 28, a volante, forma como o bando denominava a polícia, chegou devagar e esperou. Perto de o dia amanhecer os cangaceiros levantaram para rezar; um deles percebeu a presença da polícia e deu o alarme, mas já era tarde demais. Os policiais do Tenente João Bezerra e do Sargento Aniceto Rodrigues da Silva abriram fogo com metralhadoras portáteis, os cangaceiros não puderam empreender qualquer tentativa viável de defesa. Até hoje não se sabe quem foi o traidor.
Dos trinta e quatro cangaceiros presentes, onze morreram no local. A polícia saqueou e mutilou os mortos. Lampião e Maria Bonita tiveram a cabeça decepada e exibida de Nordeste e Sul do país.
Mesmo antes de morrer Lampião já era tema de poemas, músicas e livros. Mais de 60 anos depois de sua morte sua influência ainda é marcante na música, pintura literatura e cinema.
Giovanni Mota no quadro “Momento Três”, levado ao ar no programa Espaço Arte da Rádio Nacional de Brasília, em 06 de julho de 2012, apresentou três músicas que tem como tema Lampião e o cangaço: Lampião Falou, com Luiz Gonzaga; Candeeiro Encantado, de Lenine e Paulo Cezar Pinheiro, na voz de Lenine; e História de Lampião, com Jackson do Pandeiro.
Rádio Nacional de Brasília - Espaço Arte no quadro Momento Três apresentou músicas que tem o cangaço e Lampião como tema (06.07.2012).
Durante a vida Lampião foi acusado de atacar pequenas fazendas e cidades em sete estados além de roubo de gado, sequestros, assassinatos, torturas, mutilações, estupros e saques. Em algumas cidades do Nordeste, Lampião ficou conhecido como o Robin Hood do sertão, que roubava de fazendeiros, políticos e coronéis da época do coronelismo brasileiro para dar aos pobres miseráveis, que passavam fome e lutavam para sustentar famílias com inúmeros filhos.
Lampião deixou uma música popular de sua autoria, “Mulher Rendeira”, que teria sido composta entre 1921 e 1922.  A música tornou-se praticamente um hino de guerra dos cangaceiros do bando de Lampião, tendo inclusive relatos de que alguns ataques as cidades teriam sido feitos com os cangageiros cantando "Mulher Rendeira".
Em documentário produzido e narrado por Paulo Roberto, locutor da Rádio Nacional do Rio de Janeiro, feito na década de 1950 e gravado comercialmente pela Todamérica, em 1957, apresenta Volta Seca cangaceiro do bando de Lampião como compositor e intérprete de diversas músicas que estão ligadas ao ciclo dos cangaceiros, dentre elas Mulher Rendeira, com arranjos e direção do maestro Guio de Moraes. Algumas faixas desse mesmo disco foram re-lançadas, décadas depois, por um álbum, long-play, dos Estúdios Eldorado, de São Paulo, com o título de “A Música do Cangaço”. Nele, além de canções atribuídas e cantadas por Volta Seca, figuram artistas como Luiz Gonzaga, Sérgio Ricardo, Teca Calasans e Antonio Carlos Nóbrega.
Capa do LP "Cantigas de Lampeão (1957)



Volta Seca - Mulher Rendeira (1957)

20 de julho de 2012

Voz do Brasil completa 77 anos

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Luiz Jatobá, primeiro locutor da Voz do Brasil.
   A primeira edição da Voz do Brasil foi ao ar em 22 de julho de 1935 com o nome de Programa Nacional, apresentado por Luiz Jatobá. Em sua primeira transmissão, entraram em cadeia apenas oito emissoras: PRA-2, PRA-3, PRA-9, PRP-7, PRC-8, PRE-2, PRD-2 e PRF-5[1].
   O ministro das comunicações de Getulio Vargas, Lourival Fontes foi o responsável pelo surgimento do programa. Ele foi quem comandou órgãos oficiais de informação e de censura do governo Vargas, entre eles, o Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP).
   Com o DIP, o amigo de infância de Getúlio Vargas, Armando Campos, com a intenção de ajudar o seu amigo, colocando suas idéias para a população escutar, e assim serem a favor de seu governo criou o Programa Nacional, que a partir de 1937 se tornou instrumento de publicidade governamental do Estado Novo.
   Quando o relógio marcava 18h 45, o som da ópera “O Guarani”, de Carlos Gomes, dava início ao programa que se estendia até as 19h 30, em ondas médias e curtas; e das 19h 30 às 19h 45, somente em ondas curtas.Em 03 de janeiro de 1938, o nome Programa Nacional muda para Hora do Brasil e passa ter transmissão obrigatória por todas as emissoras do país, com a divulgação dos atos do Poder Executivo, das 7 às 8 horas da noite.

Abertura do programa Voz do Brasil, com o nome Hora do Brasil, em 07 de setembro de 1938, na voz de Luís Jatobá.
   Em 1945, com o fim do Estado Novo, assume a presidência da República Eurico Gaspar Dutra. O novo presidente foi pressionado pelos empresários da radiodifusão para extinguir o programa Hora do Brasil, pois se tratava de uma herança fascista da ditadura de Vargas. Em primeiro momento, Dutra cedeu ao pedido, no entanto, por argumentação dos setores político-partidários, percebeu que o programa era um importante meio de fazer propaganda em favor do seu próprio governo.
   Dutra acabou por resolver que o programa Hora do Brasil permaneceria. Temendo a reação de opositores, propôs mudanças no programa. Em 6 de setembro de 1946, através do decreto n. 9.788, o programa passou a se chamar Voz do Brasil. O número de locutores foi ampliado, com a presença de Theófilo de Vasconcelos (da época do DIP), Jair Amorim e Aristides Siqueira Leite, que se revezaram para apresentação do noticiário oficial.
   O Congresso Nacional ganhou um espaço de dez minutos. Com o fim do DIP, o programa ficou sob a responsabilidade por cerca de um ano de seu sucessor, o Departamento Nacional de Informações, DNI. Em seguida, passou à Agência Nacional, que já fazia toda a produção do programa, mas se antes estava subordinada ao DNI, agora ganhava autonomia.
   Em 24 de agosto de 1954, Getúlio suicida, e a Carta Testamento é lida integralmente na Voz do Brasil. João Café Filho assumiu o poder pressionado por donos de emissoras de rádio de todo país a acabar com o programa. Assim o faz, baixando um decreto que extinguiu a  Voz do Brasil. Tão logo a notícia foi divulgada às rádios, aos jornais e às emissoras de TV, Café Filho voltou atrás, pois precisou fazer um pro-nunciamento só possível através do programa.
   Durante o governo de Juscelino Kubitschek o seu Plano de Metas foi amplamente divulgado pela Voz do Brasil, sempre enfatizando seu caráter de redenção nacional, de libertador do subdesenvolvimento. O programa entrou no ritmo “cinqüenta anos em cinco”. Serviu de palco para as justificativas e defesa do Governo em relação às medidas necessárias para a realização do plano.
   No governo de João Goulart (1961-1964) o noticiário oficial do governo teve modificações importantes e se assemelha ao que hoje é estruturado. Passou a ter uma hora de duração, com os primeiros 30 minutos destinados aos Poderes Executivo e Judiciário; e a meia hora seguinte ao Poder Legislativo, esse último, que antes tinha dez minutos e era produzido pela  Agência Nacional, ficou sob a responsabilidade das mesas da Câmara de Deputados e do Senado. 
    A Voz do Brasil atravessa o governo de João Goulart e o regime militar, que teve inicio em 1964, divulgando asnoticias de interesse de quem estava no poder. Em dezembro de 1971, uma pesquisa de opinião sobre a audiência da Voz do Brasil encomendada pela AERP, apontou que apenas 8% dos brasileiros ouviam frequentemente o programa oficial, enquanto 51% nunca ouviam e 41% só raramente. A pesquisa limitou-se às zonas rurais do país, onde a AERP supôs ser maior a penetração do programa.
    Em 1972, o programa passa por mais uma modificação, o prefixo musical, no lugar da ópera O Guarani, passou a ser executado o Hino da Independência, de autoria de Dom Pedro I. Nos dez primeiros minutos, era veiculado o Jornal Nacional, com notícias de importância do País (oficiais ou não), do exterior e de conteúdo de interesse público, com critérios de noticiabilidade julgados pela AERP.


Acompanhe edição completa da Voz do Brasil levada ao ar em 25 de setembro de 1978.
   A Voz do Brasil também passou a divulgar informações esportivas o e restante do programa permaneceu reservado aos textos da Presidência da República, dos ministérios e órgãos subordinados. 
Clemente Drago, durante 20 anos o locutor foi a "Voz do Brasil"
   Um das vozes mais marcante da Voz do Brasil, foi a de Clemente Drago de Oliveira, o locutor começou a apresentar a primeira meia hora do programa, em 1978, que ainda estava sobre a responsabilidade da Empresa Brasileira de Notícias (EBN), e assim a fez por 20 anos.

Em entrevista concedida á repórter Rosemary Cavalcanti,
em junho de 2008, Clemente Drago lembra da sua passagem pela Voz do Brasil. 
Rejane Limaverde, uma das primeiras vozes femininas á apresentar a Voz do Brasil, na década de 1980.
   A partir de 1985, com o processo de redemocratização, vieram à tona os sinais de desgaste do programa. Crescia o número de aparelhos de rádio desligados aos primeiros acordes de “O Guarani”. Mas nem assim, a Voz deixou de ser ouvida por um número expressivo de brasileiros graças à veiculação obrigatória e simultânea, que até hoje garante ao programa a mais larga abrangência e a maior audiência do rádio nacional.  
   Ao assumir a presidência da república, em 1985,  Sarney também utilizou a Voz do Brasil para seus pronunciamentos. Ele teve uma participação nas comemorações dos 50 anos do programa onde falou da modernização do programa e de ver a Voz do Brasil como uma forma de diálogo do governo com a sociedade e do  seu  importante papel para a Nova República. Nesse período, várias foram as alterações feitas na estrutura do programa, a começar com a vinheta de abertura. Resgatou a ópera O Guarani, de Carlos Gomes, e retirou o Hino da Independência de sua abertura. 
   Renovado a partir de 6 de agosto de 1990, o programa Voz do Brasil manteve as motivações dos dirigentes anteriores que era evitar o hábito dos brasileiros de desligar o rádio com o início do programa. O texto de abertura foi alterado e a música passou a ser Aquarela do Brasil, de Ary Barroso. Surgiu um novo e longo quadro de entrevista com uma autoridade governamental e manteve-se a intenção de modernizar o programa.

Acompanhe trecho da primeira hora da Voz do Brasil levado ao ar em 24 de junho de 1996, na Voz de Clemente Drago e André Luís.
   Em 1998 foi feita nova reformulação do programa. A vinheta de abertura “O Guarani” foi escolhida com o objetivo de atualizar a identidade sonora do programa e foram adicionadas outras novas vinhetas. Abandonado o texto sisudo, surgiu uma linguagem mais leve e o tom grave e solene foi suavizado com a participação de uma mulher na apresentação do programa.
  Na presidência de Luiz Inácio Lula da Silva, em 2004, a comunicação do programa partiu para um novo conceito de comunicação pública do governo. Houve uma reforma editorial na parte do programa destinado ao Poder Executivo, que ganhou um enfoque mais jornalístico. “O Guarani” foi remixado ao ritmo de forró, samba, choro, bossa-nova, capoeira, moda de viola e até techno. E o tradicional “Em Brasília, dezenove horas” foi substituído por “Sete da noite, em Brasília”, sinal da opção pela linguagem mais simples, usual e em tom de diálogo.
Acompanhe o atual formato da Voz do Brasil, na edição levada ao ar em 04 de junho de 2012, na voz de Luciano Seixas e Glaucia Gomes.
A partirdos anos 90 sua obrigatoriedade tem sido contestada por várias emissoras e algumas têm conseguido, por medidas judiciais, não transmiti-lo ou, ao menos, não no horário das 19h às 20h. A flexibilização do horário de veiculação da Voz do Brasil já foi aprovada no Senado e aguarda votação no Plenário da Câmera.
O repórter Luiz Cláudio Canuto em matéria veiculada pela Rádio Câmara, em 03 de julho de 2012, destacou “O presidente da Câmara de dos Deputados Marco Maia afirmou que a votação da flexibilização da Voz do Brasil fica para agosto”.
   Atualmente, os primeiros 25 minutos da Voz do Brasil são produzidos pela EBC Serviços, e gerados ao vivo, via Embratel, para todo o Brasil. Já os 35 minutos seguintes são pré-gravados, para inserção pela própria EBC Serviços. Em 1995, a Voz do Brasil entrou para o Guiness Book como o programa de rádio mais antigo do Brasil. O noticiário também é o mais antigo programa de rádio do Hemisfério Sul.

[1] PEROSA, Lílian Maria F. de Lima.  A Hora do Clique: análise do programa de rádio Voz do Brasil da Velha a Nova República.  São Paulo: Annablume, 1995.
 

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